
Há duas maneiras de se conduzir a política monetária. Ela pode ser “via regra”, devendo assim seguir estritamente determinada conduta (por exemplo: sempre que a inflação esperada for 1 p.p. acima da meta, eleva-se a taxa de juros em 0,25 p.p.) ou pode ser discricionária. Isso significa que o que importa é a percepção da realidade econômica por parte da autoridade monetária. É o que acontece hoje no Brasil.
Além disso, o país adota o sistema de metas para a inflação. Nossa meta é uma inflação anual de 4,5%, com uma margem de 2 p.p. .
Nesse arcabouço, a expectativa de inflação por parte dos agentes é um componente essencial para a determinação dos preços e salários da economia. Supondo credibilidade da autoridade monetária em um regime de metas, a inflação esperada deve ser a própria meta, e é com base nela que são definidos os preços e salários na economia (claro que existem outros fatores que influenciam tal decisão, mas para efeitos de análise consideramos tudo mais constante).
Considerando a rigidez de curto prazo desses mesmos preços e salários e suficiente credibilidade do Banco Central, o seguinte cenário é possível: com objetivos político-eleitorais, a autoridade monetária pode fixar os juros em um patamar mais baixo, aumentando assim o produto e diminuindo o desemprego no curto prazo, mas arcando com o custo de uma inflação maior.
Tal comportamento é caracterizado como dinamicamente inconsistente, pois uma vez que foi adotado, dificilmente poderá ser repetido em um horizonte razoável de tempo. Isso porque a autoridade monetária passa a não ser crível, levando os agentes a já esperarem uma inflação acima da meta (o que aumenta a inflação no longo prazo).
Análise prática desse problema da inconsistência dinâmica: Pode ser uma “ótima” tática para momentos de eleição! Isso porque a credibilidade da autoridade monetária já está dada e, muito provavelmente, um novo governo (mesmo de um mesmo partido), fará certas alterações na composição do grupo ou órgão definido como autoridade monetária (entendemos que as pessoas, no geral, não passariam de uma maneira significante essa menor credibilidade a um novo grupo). Portanto, o Banco Central poderia se sentir tentado a, com fins eleitorais, reduzir os juros na tentativa de dar maior liquidez à economia, com o fim de incentivar produção e emprego no curto prazo.
Um ponto negativo de uma política como essa é que não se sabe ao certo quanto tempo os efeitos da política monetária demoram a aparecer. A inflação pode estourar na véspera das eleições, acabando com a intenção eleitoreira da expansão da base monetária.
O melhor mesmo seria uma total independência do Banco Central em relação às eleições, para que não existam dúvidas quanto suas políticas e credibilidade.
E o que o Banco Central brasileiro está fazendo?
Em março de 2010 o Comitê de Política Monetária (COPOM), que tem como função definir a taxa de juros básica brasileira (SELIC), decidiu, mesmo com a forte atividade econômica, inflação corrente extremamente elevada e expectativas de inflação já bastante acima da meta manter a taxa básica de juros em 8,75%. Alguma relação com o problema da inconsistência dinâmica? O BC estaria mantendo a taxa de juros baixa por pressões do governo?
Com as críticas recebidas e vendo sua credibilidade questionada, o COPOM quis correr atrás do prejuízo e elevou a taxa básica para 9,50% ao ano na reunião ocorrida em abril.
Para não perder o costume, o governo criticou. Mas também teme a elevação de preços. O relatório Focus dessa semana apresentou a 16ª elevação seguida das expectativas de inflação para o fim do ano. Os agentes econômicos já esperam que o IPCA feche 2010 em 5,5%.
Então fica a dúvida. Num ano que promete ter uma disputa presidencial bem acirrada, como se comportará o Banco Central brasileiro? Ele manterá autonomia?
Acho de vital importância para um Banco Central preservar sua independência em períodos que antecedem as eleições, a fim de manter a consistência de suas políticas econômicas e a credibilidade.
ResponderExcluirAcho que algumas medidas deveriam ser tomadas no Brasil para evitar que o "frizon" das eleções influenciasse na política monetária.
Algumas idéias:
1. O presidente do Bacen deveria ter que permanecer no cargo até um ano após a eleição do novo presidente;
2. O presidente do Banco Central deveria ser proibido de, mesmo renunciando, se canditar a algum cargo eleitoral no mesmo ano de sua renúncia do cargo.
São algumas idéias que, na minha opinião, assegurariam maior independência do Bacen e eliminariam possíveis viés políticos.
Na minha opnião as ultimas politicas mostraram uma determinada autonomia das entidades economicas e a política, li uma reportagem esses dias no corte de 10 milhoes em investimento, isso dado em ano eleitoral é um fato que eu nunca havia visto, dada a ultiuma reunião do copom e sua alta de juros, creio que houve uma autonomia, entretanto não sou ingenuo o suficiente pra acreditar que essa autonomia é total.
ResponderExcluir"Anônimo", concordo com você que o aumento dos juros em abril mostrou sim certa autonomia do BC, ao contrário do que foi feito em março.
ResponderExcluirJá quanto a política fiscal, o corte de 10 BIlhões no Orçamento da União será feito em custeio, e não investimento. Vejo que essa medida foi tomada com certo atraso. Ela até ajuda a não piorar, mas não irá resolver o problema da gastança do setor público.
Então só cuidado pra não confundir autonomia do Banco Central com políticas de austeridade fiscal do Governo! O Governo é sim, obviamente, influenciado pela política, ainda mais vendo sua candidata atrás nas pesquisas!
Parabéns pelas discussões, muito válidas! Vou considerar na hora das listas! rs..
ResponderExcluirBrincadeiras e elogios a partes:
1- Não vejo a política monetária do Brasil como discricionária. Dentro dos, salvo engano, 28 países adeptos do regime de metas, o Brasil é um dos que tem as regras mais claras.
2 - Também não vi a ação do BC em Abril como eleitoreira. Muito pelo contrário. Tomar a decisão ali seria menos custoso em termos de eleições do que deixar pra tomar a decisão de aumentar os juros em maio, agosto, setembro...
Outro ponto não citado aqui que é interessante nessa discussão diz respeito a declaração do Serra na semana passada. Sem querer discutir se ele está certo ou errado do pto de vista técnico, uma declaração dessas vai totalmente na contramão do discurso de independência do BC.
Luís, em nome dos 3 administradores, obrigado pelos elogios!E vamos às discussões!
ResponderExcluirQuando falamos que a política monetária no Brasil não é feita "via regra", é que não existe nenhuma lei que engesse a atuação do BC (seus membros estão lá para "fazer a coisa certa", que é atingir a meta). Sim, as regras aqui são bem claras, mas isso não significa dizer exatamente que é "via regra". Até acho que, se fosse, não haveria tanta discussão sobre as ações do COPOM quanto sempre vimos;
Quanto ao seu segundo ponto, só um comentário: dada a atual dinâmica dos preços, eu acho que o BC vai ter que elevar juros em véspera de eleição! O governo já está bastante incomodado com isso, mas me parece que não vai ter jeito...
E por último, para mim o Serra está mexendo onde não se deve com essas declarações. Prefiro achar que ele defende queda dos juros vindo naturalmente de uma política de austeridade fiscal, mas dado o passado do candidato de críticas ao BC (inclusive na gestão FHC), fica uma dúvida bastante incômoda...