Foi decidido que a companhia aérea Gol decidiu cobrar pelos lanches servidos nas viagens. As comissárias passarão pelo corredor distribuindo o cardápio e depois, retornarão anotando pedidos. Dessa forma, é como se os dois serviços fossem considerados e cobrados separadamente: o transporte aéreo e o "restaurante" a bordo.Quais serão os impactos e o motivo dessa medida?
Para responder a pergunta, é necessário expor dois quadros distintos.
Primeiramente, é possível que a estrutura do mercado de passagens aéreas no Brasil ainda seja oligopolizada, isto é, com poucas empresas, sem muita competição. Assim, a demanda pelas passagens de cada companhia é inelástica, ou seja, pouco sensível a preço. Isso significa que um leve aumento nos custos da passagem não reduziria o número de passageiros da companhia. Dessa forma, a Gol poderia passar a cobrar o mesmo lanche que oferece hoje, prejudicando o consumidor (ou sua viagem com lanche fica mais cara, ou ele passa a pagar o mesmo valor por uma viagem agora sem comida). Portanto, dada a hipótese de que o passageiro não reage muito ao custo de sua passagem, a empresa estaria aumentando sua receita e, conseqüentemente, seu lucro em detrimento do consumidor.
Uma forma alternativa de olhar para essa situação é considerar que, com o aumento da concorrência entre companhias aéreas no mercado brasileiro, o consumidor passou a ser mais sensível a preço. As pessoas possuem mais opções de empresas e tendem a escolher a mais barata. Sendo assim, se a Gol passasse a cobrar pelo lanche que oferece atualmente sem reduzir o preço da passagem, viajar em seus serviços ficaria mais caro, e ela perderia clientes (os clientes estariam pagando o mesmo preço, mas agora sem lanche).
Considerando então uma demanda sensível a preço, a Gol não pode prejudicar os seus passageiros, se não eles migram para outras companhias.
Considerando então uma demanda sensível a preço, a Gol não pode prejudicar os seus passageiros, se não eles migram para outras companhias.
A estratégia adotada pela companhia ao cobrar os lanches seria, portanto, de passar a oferecer uma comida de melhor qualidade sem aumentar o preço das passagens (apenas o passageiro que quer um "lanche de luxo" paga mais). Assim, poderia atrair o consumidor que prefere ter a opção de um bom lanche durante o vôo, serviço não oferecido nas outras companhias aéreas.
Porém, nesse caso, o passageiro que não deseja o lanche de luxo não ficará satisfeito em pagar o mesmo preço que pagava antes sem ter agora o direito de um pequeno sanduíche em sua viagem. Para não perder esse cliente (lembro aqui que estamos considerando uma demanda elástica), a companhia deve reduzir um pouco o preço da passagem, para continuar compensando viajar pela Gol. No fim, o passageiro que não deseja comer estará se beneficiando com uma passagem mais barata, sem ter que pagar pelo lanche que não consumirá (o que acontece atualmente sem a medida).
Porém, nesse caso, o passageiro que não deseja o lanche de luxo não ficará satisfeito em pagar o mesmo preço que pagava antes sem ter agora o direito de um pequeno sanduíche em sua viagem. Para não perder esse cliente (lembro aqui que estamos considerando uma demanda elástica), a companhia deve reduzir um pouco o preço da passagem, para continuar compensando viajar pela Gol. No fim, o passageiro que não deseja comer estará se beneficiando com uma passagem mais barata, sem ter que pagar pelo lanche que não consumirá (o que acontece atualmente sem a medida).
Acreditamos que o mercado brasileiro vem aumentando seu grau de concorrência entre as empresas aéreas ao longo dos anos. Sendo assim, nossa opinião se aproxima mais da segunda visão apresentada no texto.
Será que isso funciona na prática? Depende. Há lugares em que 10, 15, ou até mesmo 20 reais
não fazem tanta diferença na escolha da empresa aérea. Fatores como horário de vôo (em aeroportos onde os horários são mais restritos) ou localização do aeroporto de partida/chegada (por exemplo São Paulo, onde poucas empresas podem partir de Congonhas) podem contar mais do que uma pequena diferença no preço. Nesses casos, o cenário é mais parecido com a primeira visão apresentada: a demanda não é tão elástica, então a Gol não precisaria reduzir o preço das passagens nem aumentar a qualidade do lanche que será vendido; basta passar a cobrar pelos lanches oferecidos atualmente. Os passageiros não reagiriam ao aumento do preço do vôo+lanche (ou da perda do direito a lanche pagando o mesmo preço pela passagem) e a empresa estaria aumentando sua margem de lucro prejudicando seu consumidor.
Portanto, por ser uma medida inovadora no país, a empresa ainda terá que sentir como sua demanda reage, e as diferentes reações pelos aeroportos do Brasil (basicamente como é a elasticidade-preço da demanda). Mas é importante frisar que, mesmo se a decisão ainda não levar a uma queda de preços das passagens no curto prazo, abre espaço para isso ser feito mais para frente, quando outras empresas adotarem-na também.
A medida tomada pela Gol já é adotada em muitas empresas americanas e européias. Inclusive, há companhias que cobram pela ida ao banheiro, que gera mais custo operacional para a empresa (o mais óbvio é a limpeza). Não à toa, acha-se passagens locais por 10, 5, ou até mesmo 3 euros. A competição é forte, e esperamos que o mercado brasileiro chegue lá.
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