17 de junho de 2010

Conversa de botequim

Hoje cheguei em casa e ouvi uma conversa inusitada, entre o zelador e um porteiro do meu prédio. Eles estavam reclamando da quantidade de impostos que pagam, e dizendo que pobre não devia pagar imposto. “Afinal, tem tanto rico por aí!”, disse um deles.

A conversa me surpreendeu positivamente pelo fato de o assunto já estar sendo debatido entre a população mais pobre, mas infelizmente a conclusão deles está errada. Me lembrou uma história fictícia que li de um professor da Universidade da Geórgia, David R. Kamerschen, sobre acusar os ricos em uma situação de redução de imposto. Segue:

Suponha que, todo dia, dez homens vão ao bar tomar cerveja e a conta da mesa é sempre de $100,00. Se eles pagam a conta da forma que os americanos pagam impostos, assim o farão:

Os quatro mais pobres não pagam, o quinto paga $1, o sexto paga $3, o sétimo paga $7, o oitavo $12, o nono $18 e o mais rico paga $59.
Assim os homens bebem todo dia e todos parecem felizes, até que o dono do bar resolve dar um desconto de $20 na conta, por serem bons clientes. A conta agora passa a ser $80.

O grupo deseja continuar a divisão da mesma forma que pagam os impostos, então os quatro mais pobres continuam sem pagar. Mas e os outros seis? Como deveriam dividir de forma justa os $20 de desconto?

Os homens fazem a conta e concluem que $20 dividido por 6 é $3.33. No entanto, subtraindo esse valor da quantia que cada um pagava inicialmente, o quinto e o sexto homens acabariam sendo pagos para beber cerveja. Então, o dono do bar sugere que seria justo redividir da seguinte maneira:

Os quatro mais pobres continuam não pagando. O quinto passa a também não pagar nada (100% de desconto). O sexto passa a pagar $2 em vez de $3 (33% de abatimento), o sétimo $5 em vez de $7 (28% de abatimento), o oitavo $9 em vez de $12 (25%), o nono $14 em vez de $18 (22%) e o mais rico paga agora $49, recebendo 16% de desconto.

Todos os seis ficam em situação melhor do que a anterior e os quatro mais pobres continuam sem pagar.

Já fora do restaurante, os homens começam a discutir o abatimento em suas contas:

'Dos $20 de desconto, só fiquei com $1!, 'disse o sexto homem. Apontando o décimo sujeito, continuou: “Ele ganhou $10!”

“Você tem razão”, disse o quinto homem. “Eu também só ganhei $1 de desconto! É injusto que ele tenha recebido 10 vezes mais que eu!”

O sétimo também concordou: “É verdade! Por que ele fica com $10 e eu só com $2? Os ricos sempre ficam com a vantagem!!”

“Esperem um pouco”, interveio o primeiro homem. “Nós mais pobres não ganhamos nada do desconto. O sistema explora os pobres!”

Os nove homens cercaram o décimo e expulsaram-no do grupo violentamente.

Na noite seguinte, o homem mais rico não apareceu. Então os 9 se sentaram à mesa e beberam como sempre. Quando a conta veio, perceberam algo importante: não tinham dinheiro suficiente entre eles para pagar nem meia conta!

Isso, caros leitores, é como funciona o sistema de impostos. Os que pagam mais são os que mais se beneficiam de uma redução nos impostos. Taxem muito os mais ricos e reclamem que são adinheirados que eles podem não aparecer mais. Podem até passar a beber no exterior, onde a atmosfera pode ser mais amigável.

8 de junho de 2010

Sobre nossos incentivos

Vídeo muito interessante sobre o que realmente nos motiva.

http://www.youtube.com/watch?v=u6XAPnuFjJc&feature=player_embedded

Ainda há muito o que aprender.

Agradecemos a indicação do filme!

2 de junho de 2010

O Preço dos Lanches em Aviões

Foi decidido que a companhia aérea Gol decidiu cobrar pelos lanches servidos nas viagens. As comissárias passarão pelo corredor distribuindo o cardápio e depois, retornarão anotando pedidos. Dessa forma, é como se os dois serviços fossem considerados e cobrados separadamente: o transporte aéreo e o "restaurante" a bordo.

Quais serão os impactos e o motivo dessa medida?

Para responder a pergunta, é necessário expor dois quadros distintos.

Primeiramente, é possível que a estrutura do mercado de passagens aéreas no Brasil ainda seja oligopolizada, isto é, com poucas empresas, sem muita competição. Assim, a demanda pelas passagens de cada companhia é inelástica, ou seja, pouco sensível a preço. Isso significa que um leve aumento nos custos da passagem não reduziria o número de passageiros da companhia. Dessa forma, a Gol poderia passar a cobrar o mesmo lanche que oferece hoje, prejudicando o consumidor (ou sua viagem com lanche fica mais cara, ou ele passa a pagar o mesmo valor por uma viagem agora sem comida). Portanto, dada a hipótese de que o passageiro não reage muito ao custo de sua passagem, a empresa estaria aumentando sua receita e, conseqüentemente, seu lucro em detrimento do consumidor.
Uma forma alternativa de olhar para essa situação é considerar que, com o aumento da concorrência entre companhias aéreas no mercado brasileiro, o consumidor passou a ser mais sensível a preço. As pessoas possuem mais opções de empresas e tendem a escolher a mais barata. Sendo assim, se a Gol passasse a cobrar pelo lanche que oferece atualmente sem reduzir o preço da passagem, viajar em seus serviços ficaria mais caro, e ela perderia clientes (os clientes estariam pagando o mesmo preço, mas agora sem lanche).
Considerando então uma demanda sensível a preço, a Gol não pode prejudicar os seus passageiros, se não eles migram para outras companhias.

A estratégia adotada pela companhia ao cobrar os lanches seria, portanto, de passar a oferecer uma comida de melhor qualidade sem aumentar o preço das passagens (apenas o passageiro que quer um "lanche de luxo" paga mais). Assim, poderia atrair o consumidor que prefere ter a opção de um bom lanche durante o vôo, serviço não oferecido nas outras companhias aéreas.
Porém, nesse caso, o passageiro que não deseja o lanche de luxo não ficará satisfeito em pagar o mesmo preço que pagava antes sem ter agora o direito de um pequeno sanduíche em sua viagem. Para não perder esse cliente (lembro aqui que estamos considerando uma demanda elástica), a companhia deve reduzir um pouco o preço da passagem, para continuar compensando viajar pela Gol. No fim, o passageiro que não deseja comer estará se beneficiando com uma passagem mais barata, sem ter que pagar pelo lanche que não consumirá (o que acontece atualmente sem a medida).

Acreditamos que o mercado brasileiro vem aumentando seu grau de concorrência entre as empresas aéreas ao longo dos anos. Sendo assim, nossa opinião se aproxima mais da segunda visão apresentada no texto.

Será que isso funciona na prática? Depende. Há lugares em que 10, 15, ou até mesmo 20 reais

não fazem tanta diferença na escolha da empresa aérea. Fatores como horário de vôo (em aeroportos onde os horários são mais restritos) ou localização do aeroporto de partida/chegada (por exemplo São Paulo, onde poucas empresas podem partir de Congonhas) podem contar mais do que uma pequena diferença no preço. Nesses casos, o cenário é mais parecido com a primeira visão apresentada: a demanda não é tão elástica, então a Gol não precisaria reduzir o preço das passagens nem aumentar a qualidade do lanche que será vendido; basta passar a cobrar pelos lanches oferecidos atualmente. Os passageiros não reagiriam ao aumento do preço do vôo+lanche (ou da perda do direito a lanche pagando o mesmo preço pela passagem) e a empresa estaria aumentando sua margem de lucro prejudicando seu consumidor.

Portanto, por ser uma medida inovadora no país, a empresa ainda terá que sentir como sua demanda reage, e as diferentes reações pelos aeroportos do Brasil (basicamente como é a elasticidade-preço da demanda). Mas é importante frisar que, mesmo se a decisão ainda não levar a uma queda de preços das passagens no curto prazo, abre espaço para isso ser feito mais para frente, quando outras empresas adotarem-na também.

A medida tomada pela Gol já é adotada em muitas empresas americanas e européias. Inclusive, há companhias que cobram pela ida ao banheiro, que gera mais custo operacional para a empresa (o mais óbvio é a limpeza). Não à toa, acha-se passagens locais por 10, 5, ou até mesmo 3 euros. A competição é forte, e esperamos que o mercado brasileiro chegue lá.

29 de maio de 2010

Debate: Poupança Externa e Investimento

Os professores Affonso Celso Pastore e Luiz Carlos Bresser-Pereira, debateram, em série de 4 pequenos artigos publicados e fevereiro e março desse ano, a relação entre poupança externa e investimento.

Fica como sugestão de leitura.

26 de maio de 2010

Bolsa Família e seus incentivos




O Bolsa Família é um programa de transferência de renda criado pelo governo Lula em 2003 para integrar e unificar ao Fome Zero outros programas criados no governo FHC: Bolsa Escola, Auxílio Gás e o Cartão Alimentação.

O programa consiste na ajuda financeira às famílias pobres (com renda per capita de R$70,01 a R$140,00) e extremamente pobres (renda per capita abaixo de R$70,00). Em contrapartida, as famílias devem manter seus filhos e/ou dependentes com freqüência na escola e vacinados.

O objetivo principal é reduzir a pobreza a curto e longo prazo por meio de mecanismos de transferências condicionais de renda, visando quebrar o ciclo de pobreza que passa de geração para geração. Atualmente, o Bolsa Família se transformou em referência mundial, pois além de combater a pobreza e promover a distribuição de renda, reduzindo as desigualdades sociais, é um grande incentivador da educação (lembrando que, obviamente, esse programa deveria implicar uma rede de ensino de qualidade, o que não acontece).

Porém, programas como esse também geram distorções negativas na sociedade. Um exemplo interessante ocorreu no estado do Ceará, onde o setor têxtil é de vital importância para a economia, levando a uma grande demanda de mão de obra formada e preparada. Diante disso, o Sinditêxtil (sindicato do setor têxtil) fez um acordo com o governo do estado para coordenar um curso de formação de costureiras.

O governo exigiu que o curso fosse destinado a um grupo de 500 mulheres que recebem o Bolsa Família. As condições do acordo foram as seguintes: o governo entrou com o recurso, o Senai com a formação das costureiras (curso de 120 horas/aula) e o Sinditêxtil com o compromisso de enviar o cadastro das “formandas” às indústrias do setor, que dariam emprego às novas costureiras.

O curso foi concluído e os cadastros das costureiras formadas foram enviados às empresas, que se prontificaram a fazer as contratações. Para decepção dos apoiadores do projeto, o número de contratações foi zero. Acontece que todas as costureiras, por estarem incluídas no Bolsa Família, se negaram a trabalhar com carteira assinada, de maneira formal. Para elas, o Bolsa Família é um benefício que não pode ser perdido.

Distorções como essa não ocorrem apenas no setor têxtil. Políticas de distribuição de renda são importantes para a economia de mercado, mas são perigosas se feitas de forma não adequada.

23 de maio de 2010

Para descontrair

“All great economists are tall. There are two exceptions:
John Kenneth Galbraith and Milton Friedman”


Os 3 economistas da foto são George J. Stigler (esquerda), Milton Friedman (centro) e John Kenneth Galbraith(direita).

A frase foi dita por Stigler, como um elogio a Friedman e uma brincadeira criticando a capacidade de Galbraith como economista.

Friedman e Galbraith discutiam teoria econômica freqüentemente, e foram poucas as vezes que concordaram em algum ponto...

19 de maio de 2010

Problemas previdenciários

(clique para ampliar)

A pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, descartou nesta segunda-feira uma reforma na Previdência Social defendendo a realização de ajustes sistemáticos após discussão com a sociedade.

"Defendo que a gente ajuste a Previdência. Se aumentou a expectativa de vida da população, tem que ajustar para que a Previdência dê conta, não vai cair do céu... Tem que arrumar mais dinheiro, vai ter de mudar as regras e negociar a mudança de regras com a sociedade", disse Dilma em entrevista à rádio CBN.

Parece que a candidata quer agradar quem pede reformas sem assustar os aposentados. Achamos que o tema merece ser levado em conta e discutido mais seriamente, o que deixaria clara a necessidade de uma reforma geral.

O gráfico acima mostra, para alguns países, a expectativa de vida dos homens quando chegam à idade de se aposentar. É impressionante a mudança ocorrida em 40 anos.

O problema é que nessa fase (entre a aposentadoria e a morte) os idosos esperam um Estado mais generoso, sustentando-os quase que por completo. Surgem, então, os problemas fiscais: quem paga a conta?
No Brasil, os trabalhadores do sexo masculino podem pedir aposentadoria por idade aos 65 anos. Quando chegam nessa faixa de idade, a expectativa média é de que vivam mais 16 anos. É menos que a maioria dos países listados acima, mas o problema é o mesmo: as contas do governo.

A questão da “austeridade fiscal” é muito importante, principalmente na atual conjuntura de significante aquecimento da economia. A irresponsabilidade fiscal leva a problemas crônicos, como aumento da inflação e diminuição da poupança pública (que tem como conseqüência menores investimentos e, portanto, menor crescimento).

Tendo isto em vista, vemos que a Previdência Social brasileira registrou déficit de R$ 43,6 bilhões em 2009, um aumento de 12,65% em relação a 2008, ano em que o déficit foi de R$ 38,7 bilhões. Isso significa que o montante de impostos pago para o sustento dos idosos é menor do que a massa de benefícios concedida. A situação é crítica, e só tende a piorar.

A despeito disso, está em votação no Congresso um reajuste da aposentadoria de 7,7%, acima do que tinha sido acordado entre o governo e as centrais sindicais. A oposição aprovou, mostrando a imaturidade da política brasileira, e deixou para o Lula decidir (já que o Senado dificilmente vetará a lei).

Será que o presidente veta? Prezar pela austeridade fiscal ou se manter como o pai (irresponsável) dos aposentados? Eleições vêm aí!

Será só mais um agravante do já crítico sistema previdenciário brasileiro. Não dá para passarmos mais 4 anos dependendo de “ajustes sistemáticos” prometidos em campanha.

Atualização:

O Senado aprovou o fim do fator previdenciário e o reajuste de 7,7% para aposentadorias maiores que um salário mínimo. Agora está nas mão do presidente...

17 de maio de 2010

Para descontrair

“Eu gostaria de ser economista. Eu acho chiquérrimo, falo todo dia isso.”
(Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao telejornal SBT Brasil)

Quem diria...